O massacre do bem

Por Célio Gomes

Vejo com desconfiança toda campanha que pretende mobilizar o maior número possível de pessoas em defesa de alguma causa, seja lá o que for. A ideia de adesão incondicional a isso ou aquilo sempre me parece uma estratégia afeita ao rolo-compressor.

Um manifesto, uma lista de assinaturas que exige punição a quem expressa opiniões tidas como reacionárias são iniciativas com boa dose de autoritarismo. Nessas ocasiões, costuma-se demonizar aqueles cujo pecado mortal é o pensamento divergente.

Integrar movimentos especializados em apostar no confronto permanente, muitas vezes munidos de argumentos medievais, é também uma forma de decretar a segregação entre aqueles a serem considerados “bons”, e os inimigos, carimbados como a turma do “mal”.

A guerra se dá nas páginas da grande imprensa, nos sites comprometidos com projetos partidários e nas redes sociais. Nesses espaços não há informações isentas ao leitor, mas campanha descarada – descaramento sem limites porque disfarça o engajamento com peças do jargão jornalístico, atirando em todas as direções.

Racismo – Em Porto Alegre, uma garota de 23 anos vive dias infernais depois de ser flagrada chamando o goleiro do Santos de macaco. Em depoimento, disse não ser racista, sucumbiu ao coro que partia de toda a torcida do Grêmio no jogo contra o time santista.

Eu acredito na garota. Não sei se ela é racista, se alimenta aquele ódio que destila na arquibancada. Espero que não. Uma coisa é certa: foi a força incontrolável da manada que deu a ela as condições ideias – a segurança do (ilusório) anonimato para liberar sua veia obscurantista.

Nesta noite de quinta-feira ela foi hostilizada por cinco gatos pingados do movimento LGBT. O ato em questão mostra, mais uma vez, o oxigênio político-profissional desses patriotas que se julgam portadores de uma ética especial.

A garota do Rio Grande do Sul errou, como todos nós erramos todos os dias. Tratá-la como criminosa de alta periculosidade é prestar um favor às verdadeiras quadrilhas que assaltam o Brasil – que trafegam livremente sem abaixo-assinado ou manifestos contra eles.

Diz o ditado antigo, o mundo tá de cabeça pra baixo. Sim, contra todas as formas de discriminação. E contra toda armação que transforma movimentos sociais em meio de vida para profissionais da miséria.

Acho que já escrevi aqui: o bando, o coletivo, a turma, a convicção generalizada de forma irreversível – é nesse emaranhado que o bicho pega, o indivíduo some, a tese única prospera e seduz com facilidade.

A torcedora do Grêmio sabe que reproduziu um ponto de vista hediondo, indefensável. Mas pode pensar a respeito, pode pedir desculpas, pode até sair maior do que entrou nesse drama esmiuçado na imprensa.

Sobre os manifestantes que agrediram a jovem, durante sua passagem pela delegacia para depoimento, tenho a impressão de que têm uma longa carreira como militantes. Sem isso, e suas ideias ancestrais, deixariam de existir.  

Eleição e piada na TV

Por Célio Gomes

Você pode escolher o recorte analítico e a abordagem que julgar mais adequada. O horário eleitoral obrigatório na TV é uma oportunidade imperdível para refletir sobre a política e os políticos que temos.

A impressão generalizada é de terra arrasada. As velhas raposas, assentadas em mandatos cativos, querem a reeleição. Os novos candidatos não deixam dúvida quanto ao talento para substituir, à altura, os veteranos.

As mensagens nos programas oscilam entre a fumaça de retórica oca e os chavões de nanicos reciclados na filosofia da bizarrice.

Não existem escrúpulos capazes de barrar a distorção da realidade; e mesmo a mentira pura e simples bate ponto diariamente na casa do eleitorado pela telinha.

Se a disputa presidencial se dá entre candidatos com qualidades reconhecidas – independentemente da sua preferência -, o cenário na briga pelo Legislativo é deplorável. As chances de uma renovação, de avanço na formação do Congresso é uma miragem. 

No caso de Alagoas, só os otimistas incuráveis e os engajados em candidaturas defendem algo de relevante nesse vale de assombrações. A coisa é tão feia que o eleitor vê-se obrigado a escolher entre a porcaria que mama e a porcaria que pretende mamar.

Na propaganda, o momento mais pitoresco fica a cargo dos nanicos de extrema esquerda. Candidato-sociólogo prega a estatização dos bancos e do sistema financeiro, calote na dívida pública, desapropriação de terras do agronegócio e governo com participação popular direta.

A inspiração pra tudo isso é o regime que ruiu com a queda do muro de Berlim, há mais de duas décadas. Ou seja, com essa receita o país quebraria e teria tudo para entrar numa guerra civil. Mas estaríamos na vanguarda socialista, diz o sociólogo.

Há muitas propostas para acabar com o horário obrigatório na TV. Menos radicais, alguns especialistas propõem mudanças para aperfeiçoar essa tradição no processo eleitoral brasileiro. Não importa o modelo em vigor, o eleitor precisa ouvir os candidatos em campanha, para decidir o voto com alguma dose de informação.

Acabar sumariamente o chamado guia eleitoral não parece boa solução. Ainda mais, caso isso ocorra mesmo, o telespectador perderá o melhor programa de humor na televisão nacional. É piada que não acaba mais.

O furacão Marina Silva

Por Célio Gomes

A velha política descobriu Marina Silva. Nas horas seguintes ao debate do SBT (segunda, dia 1 de setembro), todo mundo partiu para cima da candidatada do PSB – que herdou a cabeça de chapa após a morte de Eduardo Campos num acidente aéreo. Marina é um poço de contradições, e suas ideias mais escondem do que revelam o que pretende fazer, caso leve a eleição 2014. É o que dizem por aí.

Também dizem por aí que a velha política de petistas raivosos é uma tática suicida. Comparar Marina a Fernando Collor é tão sério quanto a piada de Tiririca no Congresso Nacional. E compará-la a Jânio Quadros é um pensamento tão destrambelhado quanto o pensamento de Jânio. Detalhe: Collor Apoia Dilma.

Dilma e Lula se amasiaram a Jáder Barbalho, Maluf e Sarney. Que moral tem essa gente para acusar a adversária por supostas semelhanças com dois ex-presidentes cujos governos foram desastrosos? Não tem moral nenhuma, ora. Só o cinismo e uma aposta num eleitor desavisado justificam o trambique na História  

Marina Silva é hoje alvo de todo tipo de distorções e mentiras acerca de sua postura, suas posições diante de temas graves, sua militância em defesa das populações rurais etc.

Na Tribuna do Senado, o senador petista Humberto Costa foi a voz (e os chiliques) que proliferam nas hostes petistas. Seu discurso variou entre a hipocrisia, a armação com dados oficiais e (não menos importante) algumas piscadelas para o preconceito e a intolerância, ao falar de “FHC de saias”.

Dilma diz no horário eleitoral que Marina é contra o Pré-sal, e insinua que um governo marinista poderia privatizar a Petrobras. É mentira das grossas.

A candidata que veio do Acre também virou inimiga da bancada LGBT no Congresso. O deputado que veio do Big Brother aproveita mais uma chance de dar pinotes com seu engajamento festivo. Ontem, ele amava a mulher de trajetória inatacável, mas, agora, a ex-ministra do Meio Ambiente não passa de reacionária e defensora de projetos retrógrados.

Se as pesquisas estiverem certas, Marina é a favorita para vencer a eleição e assumir a Presidência da República. Caso isso se confirme, poderá fazer um bom governo, ou não. Cansada da mesmice da política da bandalheira nacional, expressiva parte da população brasileira, ao menos hoje, vislumbra nessa figura de aparência frágil (só na aparência) um chega pra lá na carcomida lógica da tal governabilidade. 

E no eventual governo dos sonháticos, haverá quadros e um programa que garantam uma gestão à altura das expectativas que se espalharam pelo Brasil? Com boa dose de subjetivismo – mas não só isso -, o máximo que se pode fazer é dar um crédito de confiança.

Entre todos os candidatos,  Marina é o único nome capaz de garantir o mais alto nível de confiabilidade no eleitorado. Tirar esse capital da candidata, agora avassaladora, deve estar enlouquecendo o bando de marqueteiros petistas. Os ataques, deploráveis em seus argumentos, têm tudo para produzir o célebre tiro no pé.

Agronegócio, casamento gay, Criacionismo, desprezo pelo modelo de representação política, viés religioso no exercício dos cargos públicos. Aí estão alguns pontos sobre os quais Marina deve estar preparada para a artilharia extremista. 

Nada disso parece, até agora ao menos, ameaçar os votos que por enquanto migraram em massa para a candidata do PSB. 

Voto em Marina Silva – em nome da alternância de poder, de uma aposta em novos ventos no comando do país, outras prioridades na gestão da coisa pública etc. Pode dar tudo errado, claro, mas também pode tocar em gargalos intocáveis nos governos Lula-Dilma, engessados numa coalização partidária que mais parece uma quadrilha do que uma base aliada.

Não sou otimista, não vejo engajamento como algo nobre por natureza e não tenho a menor vocação para servir a partidos, esses antros de pilantragem e desprezo pelas demandas essenciais de uma nação.

Marina não é Collor nem Jânio. A comparação prova que o desespero governista não tem limites para a bandalheira na campanha eleitoral. Volto a esse ponto para ressaltar a farsa de tal estratégia dos craques na propaganda política.

Não quero convencer ninguém com este texto.

Voto em Marina da Floresta para ver o circo pegar fogo: se as labaredas carbonizarem parte do entulho autoritário que infesta a gestão do Erário, e se anular o poder coronelista das gangs dos palácios oficiais, a virtual presidente já começaria bem. Espero que faça muito mais. Se vai conseguir, aí são outros 500. O saudável ceticismo não combina com adesismo fácil a qualquer ação governista.

Seja como for, tem muita gente pagando pra ver. Os marineiros estão chegando.

24 horas

24 horas

(Ian Curtis)

Portanto, esta é a permanência, orgulho quebrado do amor.
O que uma vez foi inocência, virou-se de lado.
Uma nuvem paira sobre mim, marca cada movimento,
Profundo na memória, do que uma vez era o amor.

Oh, como eu percebi como eu queria tempo,
Posto em perspectiva, tentei tanto encontrar,
Só por um momento, pensei ter encontrado meu caminho.
Destino desdobrado, eu o assisti escapar.

Focos excessivos, além de todo alcance,
Solitárias exigências para tudo o que eu gostaria de manter.
Vamos dar um passeio fora, ver o que podemos encontrar,
Uma coleção sem valor de esperanças e desejos passados.

Eu nunca percebi os até onde eu tenho que ir,
Todos os cantos mais escuros de uma sensação que eu não conhecia.
Só por um momento, ouvi chamar alguém,
Olhei além do dia em mãos, não há nada afinal

Agora que percebo como tudo deu errado,
Tenho que encontrar alguma terapia, este tratamento leva muito tempo.
Bem no coração de onde a simpatia reinava,
Tenho que encontrar meu destino, antes que seja tarde demais

O Aranha com a macaca


Por Fernando Coelho

O racismo no futebol não é novidade no Brasil ou fora dele. Todo mundo lembra da presepada armada por Daniel Alves e Neymar Jr. antes da Copa do Mundo. O episódio em que o lateral do Barcelona comeu uma banana arremessada da arquibancada.

O mais novo caso local a estampar as manchetes veio do jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil, ocorrido na noite da última quinta-feira (28), na Arena do Grêmio, em Porto Alegre.  

Estava assim como destaque principal do portal G1: Torcedora é afastada do trabalho no RS após ofensas racistas a jogador. A figura que ilustra a imagem acima seria uma das infelizes que teriam chamado o goleiro Aranha de “macaco”, entre outros insultos relativos à cor da pele do arqueiro.

O texto revela que a jovem – até então funcionária de uma empresa terceirizada que prestava serviços de odontologia na clínica da polícia militar gaúcha – poderá perder o emprego, já que as câmeras instaladas no estádio flagraram o momento da agressão. 

Além da indignação que a atitude sempre provoca, chamou-me a atenção o título alternativo para a legenda do frame reproduzido pelo G1. Se o leitor atentar para a imagem vai perceber que o texto diz assim: “Racismo Arena do Grêmio – NÃO USAR (Foto: Reprodução/ESPN)”. 

NÃO USAR, recomendou o editor de fotografia que catalogou a cena extraída da imagem de TV. E aí, fico a pensar no papel do editor de esportes que, supostamente, mudou de ideia e resolveu bancar a publicação. Um nome errado, um rosto trocado, um equívoco de apuração e alguém pode sofrer danos irreparáveis.

O jornalismo não é diferente de outras profissões consideradas vitais para o ser humano: basta um deslize para o mundo – ou uma vida – vir abaixo. 

Natureza humana e surfista cordial

Por Célio Gomes

Nunca soube disso. Descobri agora. Nas praias de Santa Catarina, “surfista local” é uma categoria, assim como existe, em cada pedaço do país, a categoria que representa o “artista local”.

Em Florianópolis, o caso é tão sério que os nativos que pegam onda atacam em horda um desavisado forasteiro, acusado de ultrapassar a fronteira marítima e invadir a praia proibida.

Pranchas voam e o surf vira sessão de espancamento. Os caras desferem socos e pernadas – e tudo isso no meio do mar.

Foi numa reportagem de TV que descobri que isso existe. Não sei desde quando é assim, se um fenômeno recente, se uma epidemia, se uma tradição.

O que diabos um surfista local defende ao aderir à xenofobia aquático-praieira? Por que um sujeito eleva banalidades à dimensão de um princípio, um valor?

O Brasil é mesmo o lugar da diversidade. Mas é claro que a questão catarinense ultrapassa a casa grande, a senzala, o brasileiro cordial e as raízes do país.

No sobe e desce da maré, entre adeptos do surf – esse universo de paz & amor com a Natureza –, vemos trogloditas em fúria medieval.

Repito: aquilo não é algo genuinamente brasileiro. É o Brasil, sim, é uma ocorrência registrada numa cidade localizável no mapa, mas aquilo pode ser visto intuitivamente como representação de uma ordem dominante. Desde sempre.

Desde sempre também parece existir a categoria do artista local. Mas esse é outro assunto, inerente ao mundo da arte, sempre complexo e melindroso. Fica para depois.

Gostar de música

Por Fernando Coelho

O encontro com Dinho Zampier na tarde da última semana provocou uma sensação revigorante, mas quase esquecida: ir à casa de um amigo – que gosta tanto de discos e canções quanto você – simplesmente para ouvir música.

Ouvir música e papear. Prosear.

Amenidades da vida compartilhadas com uma trilha sonora especial ao fundo. A seleção foi preparada com o cuidado de quem escolhe um presente. “Gostar de música” também é isso. Oferecer. Ser generoso. Experimentar com o outro.

Pode ser um riff, uma melodia, uma progressão harmônica, enfim, pode ser o conjunto da obra que vai te fisgar na primeira orelhada. A conversa para, os ouvidos atentam, os olhares se cruzam e os queixos caem. Se arrepiar, aí ninguém separa mais.

Embora nem sempre funcione assim – afinal, no meio de tudo isso, o filtro implacável do ‘gosto’ sempre exerce o papel mais crucial e decisivo –, a sintonia do sublime acontece quando a expectativa gerada é correspondida e a experiência se torna um momentum.

Entre lançamentos, obras recentes e antiguidades desconhecidas, fui apresentado ao rock inquieto e inventivo de Jack White com seu Lazaretto (2014) – disco que saiu do forno direto para a história; colei na cadeira diante da maturidade musical alcançada por Ed Motta em Chapter 9, pedrada lançada em 2008, mas que passou batida por mim, e vibrei com a musicalidade de Alicia Keys em When It´s All Over, sonzeira do álbum Girl on Fire (2012).

Como estava na casa de um camarada que é músico, arranjador e produtor, a sessão foi dupla, com direito a outro repertório, exclusivo e inédito, recheado com alguns dos nomes recentemente produzidos por Dinho. Coisa fina e promissora como Desa Pauline e Felipe Vaz estão na leva.

Nem dá para levar a sério quem há tempos escorrega naquela bobagem velha de que “hoje em dia não se faz mais música boa”. Neguinho confunde. Não enxerga que a produção musical é um universo infinito e não aquela órbita cansada que entope repetidamente o mainstream, o broadcast e a radiodifusão. Tem muita coisa disponível por aí, só fica nessa quem já cansou.

Sei que saí de lá em êxtase. Leve, com o sorriso de quem achou um pequeno tesouro e disposto a reparti-lo com quem passar por aqui:

Roberto, o terrível

Por Célio Gomes

O rádio, a telenovela e Roberto Carlos (o cantor) explicam o Brasil dos últimos 50 anos. São três esferas que se cruzam para produzir um universo de referências na memória e no imaginário do brasileiro.

O diagnóstico exagerado das linhas anteriores decorre da leitura de O Réu e o Rei – Minha História com Roberto Carlos, em Detalhes, do historiador e jornalista Paulo Cesar de Araújo (2014).

Primorosa mistura de reportagem e relato de um drama pessoal, a obra revela os bastidores de um cerco à liberdade de expressão: em 2007, Roberto conseguiu proibir a circulação de sua biografia, escrita por Paulo Cesar.

A biografia – Roberto Carlos em Detalhes – continua banida por decisão da Justiça, sacramentada numa audiência que mais pareceu uma comédia, como conta o autor em sua nova obra. Após chegar às livrarias no fim de 2006, foi censurada no começo do ano seguinte.

Recheado de episódios surpreendentes, envolvendo praticamente todos os medalhões da chamada MPB, O Réu e o Rei é resultado de pesquisas que duraram mais de uma década. Foi lançado pela Companhia das Letras sem anúncio prévio – a editora temia uma nova ação judicial por parte do “rei”.

Pelas páginas do livro, acompanhamos a trajetória do cantor e, ao mesmo tempo, os desafios e encrencas que infernizaram a vida do jornalista baiano desde que decidira escrever a biografia do ídolo.

Sim, Paulo Cesar virou fã de Roberto ainda criança, quando ouviu no rádio, aos quatro anos de idade, aquela canção que diz: “e que tudo o mais vá pro inferno”. Aqui, ele parece narrar não apenas sua história, mas a de milhões de pessoas que, como eu (e talvez você), também reverenciaram os clássicos do filho de Lady Laura.

Mas Roberto Carlos é terrível – e a Justiça, nesse caso, também. Na audiência que selou o destino da biografia, o compositor foi bajulado por servidores, promotores e juiz. Ao final, o magistrado informa que também é artista, um cantor, com CD gravado e tudo, e presenteia o “rei” com pérolas do cancioneiro togado, que jamais conheceremos.

Foi assim, com essa imparcialidade peculiar, que se tomou a decisão de fulminar o direito sagrado de expressão e a liberdade de pensamento. O argumento de invasão de privacidade, alegado pelos advogados do cantor, é apenas patético.

A censura a biografias esteve em debate nacional no ano passado, quando se ouviu falar do tal grupo Procure Saber, uma presepada que escancarou a intolerância e os interesses tacanhos daqueles medalhões da MPB – incluído aí o alagoano Djavan.

O que o grupo pretendia mesmo era manter em vigor um artigo do Código Penal que afronta a Constituição, pois permite que qualquer um recorra ao Judiciário para barrar publicações que julgue ofensivas à sua moral e à sua honra. O problema é que, na prática, a letra obtusa da lei tem servido unicamente para amordaçar escritores e jornalistas.

Não foi tal preocupação, no entanto, que motivou o grande Djavan a reclamar das biografias. Segundo ele, os biógrafos querem ganhar dinheiro com a história alheia; logo, para o autor de Samurai, o certo é que o biografado também leve um troco pelas vendas do livro. Isso é igualmente terrível.

A plena liberdade de expressão e o direito à privacidade não são princípios excludentes. Se o segundo prevalecer sobre o primeiro, estaremos perdidos. Mesmo com todos os seus defeitos, a democracia é capaz de conciliar demandas opostas, sem recorrer ao deplorável caminho da censura.

O embaixador do vaticano

Por Fernando Coelho

Não precisa ser fã do U2 para saber que, vez ou outra, Bono anunciou a sua versão do evangelho. Está lá, travestida de poesia nas canções de lirismo messiânico que rodam e rodaram pelas FMs e vitrolas em todo o mundo. Com aquele jeito de bom moço revolucionário, a declamar que o amor é maior e todos devem salvar o mundo. Juntos.

Na entrevista acima, veiculada no último abril por uma emissora de TV irlandesa, o cantor revelou a amplitude de sua crença. Confesso que ela é bem maior do que eu imaginava. Pois é, o Bono Vox, essa entidade da música internacional, autêntico baluarte do rock politizado, figura canônica no panteão das celebridades universais, declarou que acredita em milagres. Falando sério.

Para Bono, Jesus Cristo era um ser divino – e não  “um delírio como o de Charles Mason”. Questão de fé, meu filho. Bono também crê que Jesus ressuscitou. Sim, às vezes, aos domingos, ele vai com a família à igreja pedir paz e tranquilidade para si e para os conhecidos que atravessam problemas ou estão doentes.

Há quem acredite que a escolha do Papa Francisco foi uma “estratégia do Vaticano” para recuperar valores perdidos do Cristianismo num mundo com relações humanas cada vez mais desregradas. Chico é mais humano. Chico é franciscano. Chico é mais bonzinho. Não duvide que logo, logo ele grave um disco em dupla com o mais o mais novo contratado da paróquia.

Misericórdia.